sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lúbrica guerra

Sempre mordaz nossa aurora
E sua brisa evade do ventre
Num barril inchado em pólvora
Queimando-lhe as coxas, entre

És rendida; eis a guerra!
No túnel vadio em seu trilho
Lá longe, no topo da serra
Hei de puxar-lhe o gatilho

A carne exala velhos perfumes
Não mais ao léu nem a relva
És carniçaria; ainda que a exume
Seu corpo a pátria não salva

Um órgão quente e inciso
E danado a tanto castigo
Aqui, no colo úmido e liso
“A guerra acabou”; vos digo!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Detritos dos nossos corações

Nos detritos dos nossos corações
Uma longuíssima e atroz serpente
Emerge com seu pavor, sem razões
E domina os leigos brados d´agente

E lá no fundo desse tal palpitar
Nossas vidas retumbam a milhão
Há de convir e também espantar
O ser que lhe enfeitiça o culhão

Mas nosso clamor - agora fraco
À juventude que desaba em velhice
É o esfumaçar d` um ruim tabaco
Achado num rito de velhas crendices

E no seu sorriso tão claro e, fútil
De tons mais grotescos e burgueses
Que desbanco num sopro hostil
Contra eles – e a mim, ás vezes

Nos detritos dos nossos corações
Os sentidos fervem em balburdia
E nesse emergente pavor sem razões
A juventude há de morrer cada dia

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quarta feira de cinzas

É de cinzas meu caco de dia
O céu por menos, não diferente
Corpo estranho é a tal euforia
Trai-me em sentido decrescente

A desarmonia é mérito do inferno
E seu fogo culmina meu querer
Deformando um vil amor sereno
Quarta feira de lamúria qualquer

É de cinzas meu caco de dia
Contenho o fel com amargor
A boca assava e n´alma ardia
Um gole desse corpo incolor

Não por mal, a inconveniência
Mas o desespero é tão inesperado
O pranto é chorinho de emergência
E teu amor, um sonho velado

De cinzas meu caco de dia, de cinzas...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Alísio

Jogado ás telhas, aguardo o alísio
A tomar-me todo e imerso
Um bom torpor de tanto alívio
E um coração á ti suspenso

Estendo-te os braços, ó albor
-ah, se pudesse os possuir...
Alísio és frio!Corta o calor
Deixa-me a face a sorrir

Ponho-me ao contento abismal
Planejo-a às cores do albor
Ébrio de frias luzes, natural
Alísio sopra-se ao sol-pôr!

Os razoáveis

Os razoáveis não são para mim
O chope torna-se menos amargo
Tarde macia,acinzenta esses confins
Tão serena, presencia outro trago

Panoramas reduzidos á minha frente
Ou á qualquer caminho insensato
Sarcasmo de velhos rostos na mente
Oh bem, és um dia lento e pacato

Ah, os razoáveis ainda não sendo
Pois jamais trazem-me afagos
Por essas ruas novas, envelhecendo
Ainda reduzem aos bons tragos

Lamúrias de alegria

Tangindo à valsa um réquiem
Paixão frígida me inebria
Ô, negros amores, fiz-me refém
Teci lamúrias de alegria

Dourei-me à prata lua
Pois, fiz grisalho meu verão
Entorpeci a falta tua
Ainda só, dei-me a mão

Inverno veraneio tanto enjoa
Feliz só o Gim de sábado
Cósmica e atroz... cai garoa!
O domingo vêm sonso e calado

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Inerme a sua frente

Quando dei a face a deslizar
Entre seus seios e senti
Um pulso frio e devagar
Num vil suspiro,de repente
Não iria a algum lugar;
Estava inerme a sua frente

Tolas eram as noites de sábado
Nicotina manchando a nebulosa
O céu sorria por mim , calado
E ela dormia tão formosa
Desmanchando-me ao seu lado
E a sua sina duvidosa

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A lua nasce à esquerda

Uma nuvem parda cobre a tudo
Seu cheiro exala aromas místicos
Com o corpo leve e desnudo
Dou-me velhos mimos cínicos

A chuva inunda meus bons sonhos
E sinto uma febre – a intuição
Maldizendo os vis amores risonhos
Vou, pressionando forte o coração

Tão só, a lua nasce à esquerda
Embrenhando-se ao céu quieto
E quando a noite vem a perda
Eu me desfaço ao meu leito