quinta-feira, 3 de junho de 2010

No vale que o sul troveja

Tão longe e reles qual um infante
Sem pátria, sob os astros do sul
Que fulminam ao meu semblante
E sobre o imenso manto azul

O sol se vai sem minhas lamurias
E um bafo quente as predomina
Quando tremulam mais injurias
Tua imagem veste minha retina

Ôh amor, te vejo às constelações
Mas também n´amarga cerveja
Pequena Alemanha de construções
E nesse vale que o sul troveja

Ímpio é o coração de impulso

Pois bem, que assim o faça
Eu vos digo; Que venha a nós!
O vosso reino é uma ameaça
E no meu seio só ata nós...

Ímpio é o coração de impulso
E dissimula-se a todo custo
O amor é um anjo descalço
Feioso, mas alto e robusto

E o vício? Oh, nossa mágoa
Quão involuntários, poxa
Venenos salivam á sua língua
E secam na boca toda roxa

Molesta a alma a imprudência
Os olhos faíscam tons piedosos
Lábios segregam sem ciência
Verbos chulos e desdenhosos

Pois bem, que assim o faça!
Ímpio é o coração de impulso
Vem devagar o dia da caça
E nunca erra o teu curso

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Canção ao céu de abril

Agora os astros fremem aos meus pés
Embora inverto a cabeça pra baixo
Mas c´o bulbo latejando ao revés
Sob o céu palpitante me encaixo

Extenso raiar tonifica o espírito
A mão vai estendida a riscar o céu
E no âmago lança-se um grito;
Ô eternidade, laçai-me em teu véu!

Invoco-a um longo brado astral
Exaltarei a lealdade ao eterno
Com beijos á sua nebulosa raial
E constelações desse portal supremo

De quando em vez outros brilhos
Rangem as cotovias, muito altas
Neste céu de milhões de exílios
De planos além de astronautas

Então, quão longe e perto tremulam
As portas d´outras dimensões
Que os suspiros dos astros simulam
Minhas mais nobres sensações

Sob o céu palpitante me encaixo
- ele, talhado por mil buscapés...
Adormeço ao seu cósmico relaxo
Acima, só grila essa noite através

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Num lago claustro

D´uma antiga ponte se atira
- sobre imenso lago a dar voltas
Meu tempo, o poço que expira
Velha lamúria e suas lorotas

Alguma tarde ali, fria e peja
- tarde invernal, eu caminhante
O lago claustro só lacrimeja
Ás confissões d´outro amante

Colapsos d´amor

Tão cedo, quando o espírito toma
Um forte trago que o faz afogado
A paixão entorpece em coma
E c´o corpo ao chão estirado

As pupilas rutilam, pleno auge
D´um colapso de euforia intensa
E que faz outro seio tão longe
Sentir a sua dor nunca suspensa

Glândulas dos olhos que reviram
A expelir o que pouco se guarda
E em seus sutis gotejos deliram
Lacrimais que lavam o nada

Sempre cedo, quando o espírito
Toma um trago e faz-se afogado
Num colapso d´amor infinito
C´o peito ao chão desdenhado

terça-feira, 30 de março de 2010

Com o inverno no peito

É um inverno no peito e salpica
Cem palmadas no ataúde infernal
Assim que sol pálido nos indica
O retorno desse amor banal

Corpo astral do nosso infinito
Ritmo dos risos em compulsão
Com o próprio inverno no peito
E a tirana traíra no coração

A alma de auréola nublada
Entre beijos jogados a míngua
E sufocando-os numa talagada
Do azedume limão na pinga

É um inverno no peito e indica
O retorno desse amor banal
Assim que o sol pálido salpica
As palmadas no ataúde infernal

domingo, 7 de março de 2010

A Balada das noites em vão

O sono evadia às pálpebras escurecidas
Pungindo-me o canto dos olhos baixos
Enquanto a insônia era n´alma, ferida
Pesava em meu corpo e meus relaxos

Os sonhos escorriam de canto a boca
No breu das mil formas intrigantes
De fato, é um anseio e que evoca
Colossais sombras, vultos gigantes

Meu rosto ainda qual cru deserto
De sopros noturnos e tão moucos
Num mundo que se expira, incerto
Desperto gemendo sonhos loucos

À toa! Qual uma cotovia sem ninho
Chocando desígnios sob as telhas
Ao espumar sonhos mais daninhos
Em nobres almas e suas centelhas

Pela manhã, presságios e cismas
Cintilam ao nosso gélido velho albor
Nesse longo verão de rudes climas
Que levou sonhos sem um amor

segunda-feira, 1 de março de 2010

A ressaca!

Após flagrar-me num sonho cego
Que a vida era imensa roubada
A fé vadia ao meu velho apego
C´os olhos em flerte ao nada
A ressaca veio em desassossego
Num negrume da madrugada

Agora, deparado á fronte de anos
Murmurando promessa absurda
Que desfazem doces enganos
Sugando vis lágrimas mudas
D´uma noite de choros findamos
Essa vida sem mais ajudas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lúbrica guerra

Sempre mordaz nossa aurora
E sua brisa evade do ventre
Num barril inchado em pólvora
Queimando-lhe as coxas, entre

És rendida; eis a guerra!
No túnel vadio em seu trilho
Lá longe, no topo da serra
Hei de puxar-lhe o gatilho

A carne exala velhos perfumes
Não mais ao léu nem a relva
És carniçaria; ainda que a exume
Seu corpo a pátria não salva

Um órgão quente e inciso
E danado a tanto castigo
Aqui, no colo úmido e liso
“A guerra acabou”; vos digo!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Detritos dos nossos corações

Nos detritos dos nossos corações
Uma longuíssima e atroz serpente
Emerge com seu pavor, sem razões
E domina os leigos brados d´agente

E lá no fundo desse tal palpitar
Nossas vidas retumbam a milhão
Há de convir e também espantar
O ser que lhe enfeitiça o culhão

Mas nosso clamor - agora fraco
À juventude que desaba em velhice
É o esfumaçar d` um ruim tabaco
Achado num rito de velhas crendices

E no seu sorriso tão claro e, fútil
De tons mais grotescos e burgueses
Que desbanco num sopro hostil
Contra eles – e a mim, ás vezes

Nos detritos dos nossos corações
Os sentidos fervem em balburdia
E nesse emergente pavor sem razões
A juventude há de morrer cada dia

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quarta feira de cinzas

É de cinzas meu caco de dia
O céu por menos, não diferente
Corpo estranho é a tal euforia
Trai-me em sentido decrescente

A desarmonia é mérito do inferno
E seu fogo culmina meu querer
Deformando um vil amor sereno
Quarta feira de lamúria qualquer

É de cinzas meu caco de dia
Contenho o fel com amargor
A boca assava e n´alma ardia
Um gole desse corpo incolor

Não por mal, a inconveniência
Mas o desespero é tão inesperado
O pranto é chorinho de emergência
E teu amor, um sonho velado

De cinzas meu caco de dia, de cinzas...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Alísio

Jogado ás telhas, aguardo o alísio
A tomar-me todo e imerso
Um bom torpor de tanto alívio
E um coração á ti suspenso

Estendo-te os braços, ó albor
-ah, se pudesse os possuir...
Alísio és frio!Corta o calor
Deixa-me a face a sorrir

Ponho-me ao contento abismal
Planejo-a às cores do albor
Ébrio de frias luzes, natural
Alísio sopra-se ao sol-pôr!

Os razoáveis

Os razoáveis não são para mim
O chope torna-se menos amargo
Tarde macia,acinzenta esses confins
Tão serena, presencia outro trago

Panoramas reduzidos á minha frente
Ou á qualquer caminho insensato
Sarcasmo de velhos rostos na mente
Oh bem, és um dia lento e pacato

Ah, os razoáveis ainda não sendo
Pois jamais trazem-me afagos
Por essas ruas novas, envelhecendo
Ainda reduzem aos bons tragos

Lamúrias de alegria

Tangindo à valsa um réquiem
Paixão frígida me inebria
Ô, negros amores, fiz-me refém
Teci lamúrias de alegria

Dourei-me à prata lua
Pois, fiz grisalho meu verão
Entorpeci a falta tua
Ainda só, dei-me a mão

Inverno veraneio tanto enjoa
Feliz só o Gim de sábado
Cósmica e atroz... cai garoa!
O domingo vêm sonso e calado

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Inerme a sua frente

Quando dei a face a deslizar
Entre seus seios e senti
Um pulso frio e devagar
Num vil suspiro,de repente
Não iria a algum lugar;
Estava inerme a sua frente

Tolas eram as noites de sábado
Nicotina manchando a nebulosa
O céu sorria por mim , calado
E ela dormia tão formosa
Desmanchando-me ao seu lado
E a sua sina duvidosa

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A lua nasce à esquerda

Uma nuvem parda cobre a tudo
Seu cheiro exala aromas místicos
Com o corpo leve e desnudo
Dou-me velhos mimos cínicos

A chuva inunda meus bons sonhos
E sinto uma febre – a intuição
Maldizendo os vis amores risonhos
Vou, pressionando forte o coração

Tão só, a lua nasce à esquerda
Embrenhando-se ao céu quieto
E quando a noite vem a perda
Eu me desfaço ao meu leito