quinta-feira, 26 de junho de 2008

O santo momento

Por aguardar o santo momento
Roer-me até a carne minunciosa
E aguardar súbito, no descontento
Tão ímprovável, cada hora ansiosa

Que não seja nessa breve existência
Ao que importa, frustrar-me tanto?
Dê-me mínimos sinais de existência
E pouparei-te de ouvir os meus prantos

Já não posso suportar os delírios
Que causam más comoções
Nesses sonhos ignóbeis e, sérios
Trato-as como as alucinações

Nascera dos ventres do vento
Virá nas carruagens do nada
Sim, virá num santo momento
Á aposentar-me a velha espada

Os alcóolicos dominicais

Os coágulos alcoólicos dominicais
Meu sorriso bronco vos serpenteia
Descorando suas faces e seus ais
Enrubrescem nas bocas e nas veias

Em todas as ultrapassadas canções
Tremulam seus pés frios e inquietos
Subindo ás cochas as sensações
Entrelaçando-se entre ébrios eretos

Bom, seriam as vísceras da Sílvia?
- antes que podres caíssem, sem calma
Ô, pensei nos olhos tortos da Lívia
Que dissecavam por dentro minha alma

Nos bolsos frios, secos e famintos
Só havia alguns dedos e um isqueiro
Na volta, os risos bobos infinitos
Roncavam as barrigas de hospedeiros

Ah, assombrosos! Feios, os roncos
Patéticos e, sinfônicos demais
No silêncio, se fazem broncos
Cantarolam, os alcoólicos dominicais

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A balada dos larápios mundanos

Ora, meus covardes prantos
Ora, meus risos hilários
Façamos do mundo um pedaço de canto
Da metrópole um vasto cenário

Aqui, despojamos mais vadiagens
Caminhantes entre sarjetas e esquinas
Candelabros humanos não eram miragens
Bocas de lobos - ou, bocas de meninas

Criei e mencionei lembranças absurdas
Respirei ao fundo, os ares envenenados
Precauções? Não; palavras mudas
Um sonho branco, passageiro e gelado

O brilho da lua é voz que chama
Absorvemos alegrias destiladas
Forjamos alguma sanidade na cama
Larápios, mais que cobras criadas

A alma do Vinho

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E sei peito bastante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retirar a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa a manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te da esposa embevecida;
A teu filho farei a força e a cor
E serei para tão terno atleta da vida
Como o óleo e os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"


Charles Baudelaire

"Ó, tempo devasso!"

Eis que, o tempo devasso ,avança voraz
É agressivo e impiedoso como a morte
Desdenhando seus deletérios atrás ...
E á frente de quem anseia a sorte

Vem, riscando-lhe a fronte vulgar
Resseca, trinca e amarela os ossos
Á mente e á dúvida, caem a vagar
Nos sonhos bambos e tortos nossos

Minuncioso, mas ainda avança
Traindo-nos quando relógio despara
Definhando-nos; ponteiro é lança!
E sua fortuna , de nada adiantara

Julio Alcântara

terça-feira, 24 de junho de 2008

E , Fernando Pessoa, ja dizia...

"Se eu morrer novo, Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. "

... portanto, que p`ra mim seja assim também!!

"Romance"

I

A gente não é sério com dezessete anos.—
Uma bela noite, longe dos chopes e do anseio
Dos cafés barulhentos de lustres soberanos —
Vamos sob as tílias, verdes do passeio.

As tílias cheiram bem nas boas noites de junho!
O ar é às vezes tão doce que fechamos os olhos;A cidade não está longe — o vento é testemunho —
Há perfumes de vinhedo e perfumes de cerveja...

II—

Eis que percebemos um pano pequenino
Azul-escuro, ladeado por um pequeno galho,
Com uma estrelinha má, sumindo
Aos doces arrepios, branca como orvalho...
Noite de junho! Dezessete anos! Embriagados.
A seiva é champanhe e lhe sobe à cabeça...
Divagamos; sentimos um beijo nos lábios Que palpita lá, feito um bichano...

III

O coração louco vagueia como num romance,
— Quando, na luz de um pálido lampião,
Passa uma senhorita com encantos de relance,
Na sombra do colarinho temível do seu pai..

.E, já que ela lhe acha imensamente ingênuo
Enquanto deixa trotar as suas botinas,
Ela se vira, alerta com um movimento tênue...
— Nos teus lábios então morrem as cavatinas...

IV

Você está apaixonado. Tomado até o mês de agosto.
Você está apaixonado. Seus poemas a fazem rir.
Todos os seus amigos fogem, você é de mau gosto.
— E a adorada, uma noite, concedeu-lhe uma carta!...

— Esta noite... — você entra nos cafés soberanos,
Você pede limonada ou um chope cheio...
— A gente não é sério com dezessete anos
E quando tem as tílias verdes do passeio.


By Rimbaud